Abril Verde: como a IA e a automação afetam a ergonomia
Em entrevista ao Metadados Convida, ergonomista Marcelo Oliveira aborda riscos e melhorias trazidas pelas novas tecnologias

O Abril Verde é um mês dedicado à conscientização sobre a saúde e segurança no trabalho (SST). O período serve para reforçar a importância do cuidado com os ambientes laborais para manter a saúde e o bem-estar dos trabalhadores. Com a crescente automação e o avanço da inteligência artificial, novas preocupações surgem na ergonomia.
Esse é o tema desta edição do Metadados Convida. Sobre o assunto, conversamos com o ergonomista Marcelo Oliveira, que mantém o perfil ergonomia.forense no Instagram. Na entrevista, ele aborda quais são os principais riscos ergonômicos que surgem diante das novas tecnologias, métodos de prevenção de doenças e o que vem pela frente nessa área.
"A automação e a inteligência artificial reduzem drasticamente o esforço cognitivo, mas essa redução de esforço cognitivo também gera efeitos colaterais", alerta o ergonomista.
Confira os principais trechos da entrevista concedida à Metadados – empresa que desenvolve softwares para o RH.
Metadados: Como as novas tecnologias impactam a ergonomia no ambiente de trabalho hoje? Quais são os riscos ergonômicos mais comuns que surgem dessas mudanças?
Marcelo Oliveira: O processo de informatização foi acontecendo e deu um boom com a inteligência artificial, o que pegou muita gente de surpresa. Porém, nós ergonomistas vínhamos acompanhando o processo da ergonomia cognitiva, que muita gente chama de ergonomia psicossocial. Nós já esperávamos por ela desde 2017 e acreditamos até que chegou um pouco mais tarde no Brasil.
A automação e a inteligência artificial reduzem drasticamente o esforço cognitivo, mas essa redução de esforço cognitivo também gera efeitos colaterais. Nós, mamíferos, somos acomodados. Essa automatização e a redução do esforço cognitivo trouxe isso de modo muito veemente. Poucas pessoas realmente usam a inteligência artificial como ela realmente deve ser usada. A pessoa tem dúvida, joga na inteligência artificial, pega aquela ideia básica, mas não se aprofunda naquilo. Esse comodismo é um subproduto muito negativo dessa automação. Esse comodismo leva a uma dependência muito excessiva desses sistemas automatizados e leva as pessoas a um sedentarismo intelectual gritante.
Outro processo também que essa automação trouxe foi o trabalho híbrido e o remoto, que por um lado trazem uma flexibilidade e um conforto ao trabalhador. Mas as empresas que não estão preparadas se deparam com problemas, porque o home office nada mais é do que uma extensão da empresa dentro da residência do profissional. Com isso, vem o uso prolongado de telas. Tem mais essas telas aqui (celulares) que ficam em nossas mãos o tempo todo. Com isso, a gente tem problemas, como a síndrome do pescoço de texto, que é aquela pessoa fica o tempo todo com o pescoço flexionado.
Tem também problemas oculares relacionados à exposição de telas, dores musculares relacionados à permanência em posturas inadequadas por muito tempo ou ao próprio problema da postura sentada. Esse excesso de telas cria problemas cognitivos, cria problemas biomecânicos de ordem osteomuscular. Então, nós temos que tomar cuidado.
Metadados: O que que os profissionais de RH e de SST podem fazer para prevenir esses problemas?
Marcelo Oliveira: Antes de falar exatamente da prevenção, quero chamar a atenção para os profissionais de RH e, em especial, para os profissionais de SST: pensa na coluna vertebral como uma reta. Vamos traçar um risco (horizontal) no meio dessa reta. Quanto mais estratégica é uma atividade, do meio para cima, nós teremos mais problemas de acometimento de doenças musculoesqueléticas referentes à coluna vertebral. Quanto mais operacional, o mesmo caso (da metade) para baixo (da coluna). Nós temos hoje uma quantidade infinita de ações judiciais por problemas relacionados à doença musculoesquelética da coluna vertebral. É que a legislação entende que adoecimentos da coluna vertebral são processos degenerativos. Então, o profissional só consegue algum tipo de “recomposição” através do processo judiciário.
O departamento de RH e o de Segurança do Trabalho têm um milhão de ações administrativas que podem ser feitas para mitigar esse tipo de problema. A ginástica laboral é possivelmente o ponto inicial que uma empresa pode começar a trabalhar, mas entra também o treinamento para a mitigação de sedentarismo. Nós podemos falar também de sensibilizar o profissional para a necessidade de pausas adequadas. Outra questão que pode ser feita: alongamentos a cada duas ou três horas. Não vai impactar negativamente na produtividade e você vai ter um tempo para dar uma descansada, repor aquilo que você está perdendo em termos musculares naquele momento.
Metadados: Na sua visão como ergonomista, quais são os principais erros que as empresas cometem ao utilizar essas tecnologias inovadoras, sem considerar o impacto na saúde e na segurança dos colaboradores?
Marcelo Oliveira: Vou elencar aqui algumas, mas no final vou resumir a uma única coisa. Eu acho que não podemos trabalhar principalmente com a falta de avaliação ergonômica prévia. Ainda é um problema querer fazer as coisas depois que a coisa está pronta. A avaliação ergonômica tem que ser um trabalho prévio, antes do início da atividade.
A desconsideração da interação homem máquina também é uma questão que gera muito transtorno dentro, não só da parte ergonômica, mas também da parte de segurança do trabalho. Outra questão é a negligência nas pausas. É muito importante fazer com que o profissional faça pausas. A empresa muita das vezes exige, mas o profissional está tão focado em produzir, produzir, produzir, que ele entra num modo de automatizado.
Uma solução prática para isso é integrar a ergonomia, o SST e as práticas do RH, o planejamento estratégico e tecnológico da empresa diretamente em uma comunicação com o operacional. É ali que eu falei, vamos resumir em uma palavra: comunicação. O que falta muitas vezes entre é SST, RH, planejamento estratégico e a linha operacional é a comunicação.
Metadados: As empresas podem utilizar as tecnologias digitais para monitorar e melhorar continuamente as condições de saúde e segurança no ambiente de trabalho?
Marcelo Oliveira: São várias tecnologias para se fazer isso hoje em dia. Nós temos hoje materiais que fazem avaliação full time das atividades do profissional dentro do âmbito da segurança do trabalho e da própria ergonomia. Uma das coisas que tem surgido com muito impacto é a adoção de sensores. Hoje existem sensores posturais que podem ser adaptados às cadeiras ergonômicas. Existem sensores para fazer monitoramento em tempo real de ruído, de temperatura, de umidade. Dispositivos que nós chamamos de dispositivos vestíveis, como, por exemplo, um smartwatch, que consegue medir a fadiga e o esforço físico de uma determinada atividade em tempo real.
A adoção de inteligência artificial ou de big data para fazer análise ergonômica, para fazer identificação de fatores de fadiga, sobrecarga... O uso da própria inteligência artificial na prevenção de acidentes através da detecção de postura inadequada e de movimentos repetitivos. Adoção de softwares para a prática de SST e para a prática de RH. Antigamente, um profissional de SST demorava um ou dois meses para fazer um PPRA, que hoje é o PGR. Hoje, em 20 minutos, lançando os dados da maneira correta, você tem o PGR muito bem elaborado de acordo com alguns softwares.
O aproveitamento da realidade virtual aumentada para treinamentos, análises e simulações. Hoje a gente não precisa mais de um exercício simulado, expor um profissional a risco. Eu posso simplesmente utilizar um óculos de realidade virtual aumentada, deixá-lo ali naquela condição em que ele vai simular as ações.
Outra coisa que é muito importante, mas esse eu vou fazer uma observação mais cuidadosa, seria a adoção da telessaúde para o controle da saúde do trabalhador. Só que lembrando que, segundo o Conselho Federal de Medicina, é proibida a adoção de telessaúde para a prática de medicina ocupacional. Mas nós podemos utilizar aplicativos para celular, por exemplo, onde o profissional vai ter acesso direto aos resultados de saúde ocupacional. Ou ele vai ter acesso, caso a empresa tenha a um profissional da área de psicologia organizacional, para fazer uma interação online. Ou mesmo uma consulta direta com ergonomista.
Então, a adoção dessas tecnologias não é algo que está distante. Apesar de nós termos citado tecnologias que são caras, como o treinamento em realidade aumentada, o monitoramento remoto da saúde por dispositivos inteligentes é uma coisa muito barata.
Claro, nós temos que verificar a parte da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), que não é a minha praia, mas estou demonstrando aqui que existem modos de nós fazemos o acompanhamento para a mitigação da fadiga mental, bioesquelética e biomecânica, o que pode ajudar na prevenção de outras doenças, como o burnout.
Metadados: Agora em maio, tem a obrigatoriedade da inclusão dos fatores psicossociais no PGR (Programa de Gerenciamento de Riscos). Quais são as tuas orientações para o RH e para os profissionais de SST em relação a esse assunto?
Marcelo Oliveira: A primeira coisa em relação à nova NR-1 é o cuidado que todo empresário deve ter quando surge uma novidade em que as pessoas percebem “opa, consigo ganhar dinheiro com isso”, aparece muito aventureiro na internet. Hoje em dia, o que nós temos visto de especialista em ergonomia falando sobre fatores psicossociais do trabalho é muito grande na internet. Então, o primeiro o cuidado é: cuidado onde você busca informação.
Os fatores psicossociais do ambiente laboral, que estão sendo agora inseridos dentro do PGR, não é uma coisa nova. É uma coisa nova para quem fica ligado só em NR, mas não é uma coisa nova de modo geral. A norma BS 8800 já trabalhava com fatores sociais desde a década de 1980 na Europa.
Cuidado a ser tomado, primeira coisa: ergonomia. Ela lida com o conforto, não lida com limites de tolerância. A exposição de um fator dentro de um ambiente laboral pode ser entendida de um modo diferente por mim e o organismo do outro vai compreender isso de um outro modo.
Sei que para a área de segurança do trabalho, muitas vezes, é difícil. Um técnico de segurança, por exemplo, fazendo uma avaliação ergonômica preliminar numa empresa com 10.000 funcionários, é muito complexo imaginar ou supor que eu vou conseguir ouvir todos os funcionários, mas eu posso aplicar um questionário e determinar onde é que estão os desvios e usar as entrevistas só nesses desvios. Depois que é identificado esse desvio e criado um aspecto de controle, passar para a área de ergonomia ou, se a empresa não tem uma área de ergonomia, para engenharia de segurança, que também é um profissional que tem, em tese, habilitação para trabalhar com ergonomia, para que faça uma análise mais aprofundada.
Essa análise não pode ser feita por uma única mão. Eu tenho um aspecto físico, que eu tenho certeza de que todos os engenheiros sabem atuar, mas eu tenho um aspecto organizacional que talvez eu possa encontrar base de auxílio de trabalho em certas áreas administrativas da empresa.
Eu tenho aspectos cognitivos que talvez o pessoal do RH, em especial a área de psicologia e de serviço social, possa me subsidiar ali com outras informações. Então, a ergonomia se tornou um campo multiprofissional. Um cuidado muito importante de ter na hora de desenhar esses riscos, em especial os riscos psicossociais: fazer isso, sempre que possível, de maneira multiprofissional, multissetorial.
Metadados: Considerando a inteligência artificial e a automação avançada, quais as tendências futuras que você analisa que vem pela frente em relação à ergonomia e à saúde ocupacional nos próximos anos?
Marcelo Oliveira: Uma questão que eu acho que as empresas precisam se antecipar é que o monitoramento de SST e o monitoramento ergonômico têm que passar a ser feitos em tempo real. A prevenção de doença ocupacional precisa necessariamente se adequar às novas realidades, à adoção das inteligências artificiais. O uso de realidade aumentada para treinamento já é presente. Ele precisa ser feito, porque eu não preciso mais ficar tirando o profissional do ambiente de trabalho full time para ficar dando treinamento, até porque existem muitos profissionais que já estão no regime home office.
Automação na redução de esforço físico, adoção de exoesqueleto. Diferente das cintas lombares, hoje nós já temos exoesqueletos inteligentes que limitam o organismo sem fazer a atividade biomecânica que o organismo faria, sem causar dano a médio e longo prazo. E o exoesqueleto também já é uma realidade, inclusive produzida no Brasil.
A adoção da ergonomia digital, da gestão do bem-estar mental é uma coisa que os RH precisam trabalhar muito. Hoje nós temos um choque de realidade entre a geração da minha época (eu sou da década de 1970) e a Geração Z. Essas gerações têm que aprender a conviver e existe uma comunicação violenta muito pesada entre essas duas gerações.
Os departamentos relacionados à parte de treinamento de gestão de pessoas estão intimamente ligados à mitigação desses aspectos dos problemas psicossociais, dos problemas de ordem de assédio moral que existem nos ambientes laborais muitas vezes relacionados a esses problemas entre as gerações. Nós precisamos aprender a conversar e aprender os valores de cada uma dessas gerações. Isso está diretamente ligado à ergonomia psicossocial e organizacional.
E, por último, mas também não menos importante, nós precisamos aprender a personalizar a ergonomia, a personalizar a SST, a personalizar a comunicação com o nosso chão de fábrica. Mas a personalizar essa comunicação de modo mais assertivo e hoje a inteligência artificial faz isso para nós de uma maneira facilitadíssima. Só que nós precisamos aprender a lidar com a inteligência artificial e compreender que as cabeças pensantes somos nós.